Antonio Augusto
de Assis, mais conhecido como A. A. de Assis, 71, nasceu em São Fidélis-RJ. Veio para
Maringá em 1955, retornou ao estado do Rio em 1959 e novamente transferiu residência
para Maringá em 1963, aqui permanecendo até hoje. Aposentou-se em 1997 como professor do
Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá. Desde a juventude tem-se
dedicado à poesia. Em 1960, residiu em Nova Friburgo-RJ, berço da trova moderna no
Brasil. Nesse período, conviveu com os mais importantes trovadores da época, tais como
Aparício Fernandes, Delmar Barrão, Luiz Otávio, J.G. de Araújo Jorge e outros, daí
surgindo seu entusiasmo pela quadra setissilábica. Assis é autor de vários livros e
também da Missa em trovas, que tem sido celebrada em quase todo o país em festas de
poesia. Tem uma estante cheia de troféus ganhos em concursos literários realizados
Brasil afora e em Portugal. Para a entrevista que transcrevemos a seguir, o poeta
maringaense nos recebeu em sua residência, onde conversamos durante cerca de uma hora.
AGENIR
Qual a diferença entre poeta e trovador?
ASSIS A
mesma que existe, por exemplo, se é que existe, entre médico e cardiologista. Todo
cardiologista é médico mas nem todo médico é cardiologista. Assim também, todo
trovador é poeta mas nem todo poeta é trovador. Digamos que a trova é uma especialidade
dentro do gênero poesia.
AGENIR
Como se define a trova?
ASSIS É
um micropoema sem título, composto de quatro versos de sete sons (sete sílabas), rimando
o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto.
AGENIR
Mais ou menos como o haicai?...
ASSIS O
haicai é menor ainda: compõe-se de três versos, sendo o primeiro e o terceiro com cinco
sons e o do meio com sete sons. Uns dizem que a trova é o haicai ocidental; outros que o
haicai é a trova japonesa. Tanto a trova quanto o haicai primam pela síntese.
AGENIR A
trova deve ser muito antiga...
ASSIS Tem
mais de mil anos, e no entanto continua cheia de vida. Suas origens remontam à Idade
Média, a partir do sul da França, de onde se expandiu por toda a Europa, encontrando seu
canteiro mais fértil na Espanha e em Portugal. A língua portuguesa nasceu cantando
trovas, na voz dos antigos jograis e menestréis. Ao Brasil a trova chegou de carona nas
caravelas de Cabral, sobreviveu às diversas escolas literárias que andaram na moda
nestes últimos quinhentos anos, e permanece até hoje na boca e no coração do povo como
a mais natural das modalidades poéticas.
AGENIR
Ainda existem jograis e menestréis?
ASSIS De
certo modo, sim. Os jograis e menestréis da Idade Média saíam de corte em corte
cantando suas trovas, nas quais contavam novidades, espalhavam fofocas... eram os
repórteres da época. A cantoria deles era um verdadeiro jornal em versos. São seus
sucessores, hoje, os cantadores do Nordeste e do Sul do Brasil, com seus repentes e
cordéis. O cordel é, em última análise, uma grande reportagem sobre algum assunto em
evidência no momento.
AGENIR E
qual a diferença entre os cantadores populares e os trovadores literários?
ASSIS Uma
diferença importante está na maneira de compor a trova: os cantadores não seguem uma
forma fixa, enquanto os trovadores conhecidos como "literários" seguem as
normas da UBT (União Brasileira de Trovadores) e obedecem ao padrão culto da língua,
utilizando vocabulário acessível mas valorizando a correção gramatical.
AGENIR
Pode-se então enquadrar a trova como um modo de comunicação...
ASSIS
Claro que sim. Comunicar é transmitir a alguém uma informação, um pensamento, um
apelo, uma emoção, e isso se faz de muitas formas: mediante um gesto, um desenho, um
sinal sonoro, um texto oral ou escrito, em prosa ou verso. A trova é um modo de
comunicação em versos, tal como o haicai, o soneto, o poema livre, a letra de música
etc.
AGENIR
Haveria lugar para a poesia, hoje, na mídia?
ASSIS
Parece que cada vez menos. Houve tempo em que todos os jornais e muitas revistas, bem como
as emissoras de rádio e algumas de televisão abriam espaço para a literatura. Hoje,
porém, os tempos são outros. Há uma tremenda disputa pelo leitor e pelo ouvinte, de
modo que a matéria precisa interessar ao maior número possível de pessoas, sob pena de
queda no ibope.
AGENIR E
literatura não dá ibope...
ASSIS Pelo
menos não tanto quanto futebol, polícia, política, economia, fofoca, humorismo... O
romance, outrora tão popular, foi quase totalmente substituído pela telenovela...
AGENIR
Poesia, nem pensar... Seria um produto em extinção...
ASSIS
(risos) ...Não exageremos. Não tenho notícia de que a mídia em algum lugar se ocupe em
divulgar, por exemplo, o futebol de botão. No entanto, há um sem-número de meninos (de
todas as idades), a começar pelo Chico Buarque de Holanda, que são apaixonados por esse
esporte. As pessoas jogam botão pelo prazer que isso lhes dá, independentemente da
repercussão que possa ter na mídia o seu divertimento. Da mesma forma se comportam os
que escrevem, lêem e até colecionam trovas.
AGENIR
Quantas pessoas gostariam de trovas no Brasil?
ASSIS Não
há uma estatística... Só de trovadores conhecidos, temos uns 5 mil. Mas não há como
saber quantas pessoas, não-poetas, se deliciam lendo essas quadras. Ninguém sabe também
quantos brasileiros apreciam palavras cruzadas, mas é difícil achar um jornal que não
as ofereça aos seus leitores. O jornal Diário Gaúcho, de Porto Alegre, publica uma
coluna com o título "A Trova do Dia", e o retorno em forma de correspondência
é surpreendente. É difícil fazer uma boa trova, porém é muito fácil entendê-la; por
isso tanta gente gosta dela. E depois que a pessoa "prova" algumas, acaba se
apaixonando...
AGENIR
Livro de poemas vende nas livrarias?
ASSIS No
Brasil, muito pouco. O único que conseguiu ganhar dinheiro vendendo poesia foi J. G. de
Araújo Jorge, cuja popularidade chegou a fazer dele um dos deputados federais mais
votados no Rio de Janeiro. No romance, Jorge Amado foi um dos campeões. Mas o que mais se
vende nas livrarias é livro didático, religioso, de receitas culinárias, de esoterismo
e de auto-ajuda. Paulo Coelho, sozinho, vende mais que todos os outros escritores
brasileiros juntos.
AGENIR
Como é que os trovadores se comunicam uns com os outros?
ASSIS Pelo
velho correio; pela Internet; por telefone; e por meio de uma grande rede de periódicos
publicados mensalmente pelas muitas seções da UBT União Brasileira de
Trovadores. Aliás, uma das razões do sucesso da trova é o fato de ela ter mídia
própria. Alguns desses informativos têm tiragem superior a dois mil exemplares, com
assinantes em todo o Brasil e em Portugal. Ali saem, além de trovas, também notícias e
comentários, e os editais e resultados de todos os concursos de trovas. A média tem sido
de 60 concursos por ano.
AGENIR Há
prêmios em dinheiro?
ASSIS A
UBT não apóia nenhum concurso que ofereça prêmio em dinheiro ou que cobre taxa de
inscrição. O amor à arte é levado muito a sério. Os vencedores recebem troféus,
medalhas e diplomas, além de hospedagem e refeições na cidade-sede do concurso durante
a festa de premiação.
AGENIR Há
trovadores profissionais?...
ASSIS São
trovadores profissionais muitos dos cantadores e repentistas do Nordeste e do Sul do
país, dos quais já falamos, e que se apresentam como artistas em festas e shows. Os
trovadores ditos "literários" são todos amadores: fazem trovas por
diletantismo, sem nada receber em troca. Até quando publicam livros, distribuem-nos de
graça aos amigos, ou por preço de custo.
AGENIR
Mas, afinal, quem são esses trovadores chamados "literários"?
ASSIS São
pessoas comuns, como todos nós, cada qual com sua profissão: professores, jornalistas,
médicos, militares, advogados, engenheiros, bancários, operários, comerciários,
empresários, agricultores etc., os quais, nas horas vagas, se divertem fazendo trovas.
Nota-se entre eles, sobretudo, um grande número de aposentados.
AGENIR
Deve ser mesmo um bom divertimento para idosos.
ASSIS
Costumo dizer que a trova é um ótimo brinquedo de velho... É a
"trovaterapia". Você faz uma bela ginástica cerebral na construção de cada
quadra. Além disso, a trova faz amigos, por meio da correspondência mantida e dos
freqüentes encontros da "tribo".
AGENIR Há
muitos trovadores no Paraná ? E em Maringá?
ASSIS O
Paraná tem longa tradição em trova. Atualmente, as principais praças trovistas
paranaenses são Curitiba, Maringá, Bandeirantes, Ponta Grossa e Londrina, mas não sei
dizer quantos trovadores existem hoje no estado. Em Maringá, estão filiados à seção
local da UBT 32 trovadores, alguns simplesmente como "gostantes"...
AGENIR
Parece que vocês são mesmo bem-organizados...
ASSIS
Somos sim. O trovismo, embora não faça disso grande alarde, é o movimento literário
mais amplo, mais animado e mais organizado que até hoje se conheceu no Brasil. É uma
verdadeira confraria.
AGENIR
Além de concursos, o que mais vocês fazem?
ASSIS Os
concursos são apenas um dos itens da atividade trovista. Realizam-se também congressos,
recitais, festas de musas, sessões de autógrafos, palestras e oficinas de trovas em
escolas, exposições... Em Bauru, por exemplo, todos os anos, é feita uma exposição
chamada "A Trova no Parque", com centenas de trovas escritas em cartazes que
são colocados entre as árvores. Na abertura do evento, é costume fazer uma "chuva
de trovas", com milhares delas lançadas de avião sobre a cidade. Em Pouso
Alegre-MG, foram pintadas trovas educativas em todos os prédios públicos da cidade. Em
Curitiba, durante a semana dos Jogos Florais/2003, todos os ônibus do transporte urbano
circularam expondo cartazes com trovas. Em outras cidades têm sido realizados
"comícios de trovas" (e Maringá foi pioneira nisso, em 1966), com os
trovadores apresentando seus versos em praça pública.
AGENIR E
sonetos, ainda há quem os escreva?
ASSIS Há
sim, muita gente. Temos ótimos sonetistas, tão bons quanto os do tempo de Bilac, ou até
melhores. A única diferença é que no tempo de Bilac as pessoas tinham mais tempo para
ler: não havia cinema, nem televisão, nem shopping... Hoje talvez haja menos leitores,
porém a qualidade dos versos é a cada dia melhor. A poesia não morrerá nunca. Aliás,
toda arte é eterna. Se assim não fosse, ninguém mais ouviria Bach, Beethoven, Chopin,
Mozart, Strauss...
AGENIR
Você se dedica exclusivamente à trova?
ASSIS
Preferencialmente, mas não exclusivamente. Gosto muito da trova e do haicai, porque sou
fascinado pela síntese. Da trova mais ainda, por sua musicalidade e por ser um poema
fácil de ser compreendido. Mas faço também soneto, verso livre, concreto...
AGENIR A
trova tem trazido algum benefício especial para Maringá?
ASSIS Não
sei o que você chama de "benefício especial". Traz alegria para nós, que
temos nisso o nosso recreio intelectual. Mas deve beneficiar também Maringá, pela
divulgação que faz da cidade. Cada vez que aqui promovemos um concurso, um congresso ou
uma festa de trovas, todos os trovadores do Brasil e de Portugal ficam sabendo. Os que
aqui vêm participar pessoalmente do evento saem sempre dizendo maravilhas da cidade. E
toda vez que um de nós é premiado lá fora, o nome de Maringá é publicado junto com o
da gente. Aliás, há muitas cidades onde as festas de trovas fazem parte do calendário
turístico oficial.
E são festas
lindas.